sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Violência direcionada a gays, é sobre masculinidades.

Continuando o tema da postagem anterior. Gostaria de trazer um texto muito interessante, que foi por mim traduzido, sobre a temática. Trata-se de um texto escrito por Michael Kimmel que é professor do departamento de sociologia da Universidade de Nova York e que estuda há anos o tema da masculinidade, já tem mais de 20 livros publicados sobre o tema. O artigo foi originalmente publicado no inverno de 2011 na Revista Voz Masculina e republicado em inglês no link.
Antes do texto cabe uma reflexão que fiz durante toda a leitura do texto, Até que ponto nossa realidade brasileira se aproxima e se distancia da americana relatada por Kimmel no texto a seguir?
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Violência direcionada a gays, é sobre masculinidades.

Michael Kimmel

O trágico suicídio do estudante de primeiro ano Tyler Clementi da Rutgers University no outono passado levou a uma compungida onde de angústia nacional sobre as torturas e humilhações diárias sofridas por gays e lésbicas jovens. Um artigo no The New York Times expandiu o debate para incluir as histórias de vários outros adolescentes gays que recentemente cometeram suicídios, como Seth Walsh de Fresno, Califórnia, que sofreu um bombardeio implacável de insultos, bullying e outros abusos nas mãos de seus pares. Walsh enforcou-se em setembro aos 13 anos. Ainda, em nossa busca coletiva de soluções e explicações perdemos um fato relevante. Aqui estão os nomes dos adolescentes do artigo do Times: Tyler Clementi, Seth Walsh, Billy Lucas, Asher Brown. Não notou nada? Todos são garotos. Escrever que adolescentes gays sofrem abuso ou bullying tão implacável obscurece tanto quanto revela. Não são adolescentes. São meninos. Sim, adolescentes lésbicas podem ser implacavelmente atormentadas, perseguidas e intimidadas na escola. Elas podem ser impiedosamente insultadas no ciberespaço, e evitadas no espaço real. Mas a quantidade de raiva que inspiram raramente se compara a vivida por meninos. E isso não é por causa do modismo atual do falso-lesbianismo entre garotas adolescentes. Claro, é verdade que muitas meninas adolescentes têm beijado uma menina e gostado, como Katy Perry proclama. Mas há algo fundamental sobre a homossexualidade masculina que provoca o que os psicólogos chamam de “Pânico homossexual”, é um esforço quase histérico de se livrar da ameaça percebida. Para o meu livro Guyland entrevistei cerca de 400 jovens em todo o país. Descobri que muitas das escolas secundárias dos Estados Unidos tornaram-se ringues através dos quais os estudantes devem passar todos os dias. Valentões perambulam pelos corredores, tendo como alvo os mais vulneráveis ou isolados, batendo neles, destruindo suas lições de casa, empurrando-os em armários, afundando suas cabeças nos vasos sanitários ou apenas zombando deles implacavelmente. É tudo feito em público em playgrounds, banheiros, corredores, até mesmo nas salas de aula. E as outras crianças, riem e a incentivam ou correm para as paredes na esperança de permanecer invisível para que não seja o próximo alvo. Para muitos, apenas ser notado por não ser legal ou estranho é motivo de um grande temor.

Por que alguns alunos são alvo? Porque ser gay ou mesmo parecer gay – pode ser tão desastroso para um garoto adolescente. Porque o jeito mais comum de rebaixar alguém ou alguma coisa em escolas americanas hoje é dizer que “isso é tão gay” ou que “isso é bicha”. E isso se refere a tudo e a qualquer coisa. Que tipo de tênis você tem, o que você está comendo no almoço, algum comentário que você fez em sala de aula, quem são seus amigos ou o time que você torce. Um aluno de uma escola média-alta em Des Moines ouve um comentário anti-gay a cada sete minutos e os professores intervêm apenas cerca de três por cento do tempo. Depois de passar um ano em uma escola da Califórnia, um sociólogo intitulou seu relato etnográfico de “Cara, você é uma bicha”. É verdade que gays e lésbicas são muito mais frequentemente alvo de hostilidades que seus colegas heterossexuais. ,as é verdade que muitas vezes sentimentos anti-gays são apenas parcialmente relacionadas à orientação sexual. Chamar alguém de gay ou bicha se tornou tão universal que se tornou sinônimo de burro, estúpido ou errado. E é burro ou errado porque não se é masculino o suficiente. Para o refrão “isso é tão gay” homossexualidade diz respeito a não conformidade de gênero, a não ser um “homem de verdade” e assim sentimentos anti-gays tornam-se atalhos para a política do gênero. Uma pesquisa mostrou que a maioria dos meninos americanos preferiria levar um soco no rosto do que ser chamado de gay. Dizer para um adolescente que o que está fazendo ou vestindo é gay é como se tivesse recebido um aviso da política de gênero que diz que se você persistir, eles podem ter que te corrigir. Muitos acham que ser gay significa não ser um cara. Essa é a escolha ou se é gay ou se é um cara. Em um estudo realizado pela Humam Rights Watch, os estudantes heterossexuais consistentemente relataram que os alvos eram apenas meninos que não fossem atléticos, bem vestidos ou que fossem estudiosos e tímidos.

Tomemos o caso de Jesse Montgomery, que entrou com uma ação X nos tribunais de Minnesota, depois de sofrer 11 anos de abusos verbais e físicos. Jesse era tratado com uma avalanche diária de “bicha”, “estranho”, “homo”, “gay”, “menina”, “princesa”, “fada”, “freak”, “puta”, “maricas” e muitos mais. Ele era regularmente socado, chutado e derrubado. Alguns dos tormentos eram inclusive sexuais. Um dos estudantes agarrou seus próprios genitais enquanto apertava suas nádegas, em outras ocasiões ele estaria por trás esfregando seus genitais nas nádegas de Jesse. Aliás, Jesse Montgomery é hétero.

Assim, também,ocorreu com Dylan Thomas, um ex-estudante de 18 anos da Tonganoxie High School em Kansas. Iniciou-se na sétima série, ele era constantemente insultado como “bandeiroso”, “bicha” ou “menino masturbador” e diariamente assediado no refeitório ou parque infantil. Professores passaram a olhá-lo de uma outro maneira ou riam junto com os assediadores. Por que? Dylan explicou: “porque eu era uma criança diferente, você sabe, eu não era o macho alfa. ... Eu tinha um cabelo diferente do de todo mundo, eu usava brincos... Eu não era um grande fã de esportes na escola”.

Claro, se você é realmente gay, o assédio é implacável e muitas vezes inteiramente descartado pelos adultos responsáveis, ou pior, considerado apropriado. Tomemos o caso de Jamie Nabozny em meados da década de 1990. No início do ensino médio, um professor o perseguiu, cuspiu, urinou sobre ele, o chamou de bicha e inclusive simulou um estupro enquanto ao menos 20 outros estudantes olhavam e riam. Todas as vezes o diretor da escola e outros professores ignoravam suas queixas dizendo a Jamie que ele deveria esperar este tipo de tratamento se ele era gay e que, bem, garotos deveriam ser garotos. Nabozny processo o distrito escolar e os diretores de ambas as escolas “middle school and the high school”, que pagaram cerca de US$ 1 milhão por danos. Sua ação abriu uma porta para aqueles que são alvos de bullying e assédio na escola, porque os distritos escolares e administradores podem ser responsabilizados se não interferirem eficazmente para parar o abuso.

Mas garotos com não conformidade de gênero ainda precisam de proteção, não apenas dos valentões, mas dos professores, pais, administradores e membros da comunidade que os olham de outra maneira, na melhor das hipóteses ou são coniventes com eles.

A maioria dos americanos concorda que comportamentos racistas e anti-semitas são explicitamente inaceitáveis, uma afronta à sua sensibilidade moral. Racismo e anti-semitismo estão fora dos limites, mesmo que eles não se tornem físicos e a maioria de nós acredita que aqueles que expressam abertamente estes sentimentos dever ser severamente punidos. Porque é que isso não é também verdadeiro com a violência direcionada a gays?

2 comentários:

FOXX disse...

como professor e gay ler essas coisas são uma facada no meu coração, e o pior que não adianta vc combater somente na escola q vc trabalha, é preciso formar professores que possam combater isso em todas as escolas, essa formação tem q existir desde o início da formação do professor.

FOXX disse...

ah, e parabéns pelo blog.